Jacob Roggeveen foi o primeiro europeu a pisar em Rapa Nui, em 1722.
Diário de bordo oficial do Sr. Jacob Roggeveen
Transcrito, traduzido e editado por Bolton Glanvill Corney. Publicado em 1908.
Traduzido do alemão de CARL FRIEDERICH BEHRENS: Der wohlversiichte Süd-Länder y das ist: ausführliche Reise-Beschreibung um die Welt.
Arquivo de origem (.pdf): The voyage of Captain Don Felipe González to Easter Island 1770-1, p. 93–115
5. Nossa latitude estimada era de 27 graus e 4 minutos Sul e a longitude de 266 graus e 31 minutos; rumo Oeste ½ Sul, distância 7 milhas; vento de nor-noroeste a sudoeste, brisa instável, com calmarias, além de tempo carregado e aguaceiros. Avistamos uma tartaruga, algas flutuantes e aves. Por volta da 10.ª ampulheta do quarto da tarde, o African Galley, que navegava à nossa frente, pôs-se à capa para nos esperar, fazendo o sinal de terra à vista; quando o alcançamos, passadas quatro ampulhetas, pois a brisa era fraca, perguntamos o que tinham visto. Responderam-nos que todos tinham visto com toda a nitidez uma ilha baixa e um tanto plana, a estibordo, a cerca de 5 ½ milhas, ao norte e a oeste. Julgou-se então conveniente seguir com pouco pano até o fim do primeiro quarto e depois pôr-se à capa à espera do amanhecer. Decidido isso, deram-se as informações necessárias ao capitão BOUMAN, que vinha à nossa popa, e à terra o nome de Paásch Eyland, por ter sido descoberta por nós no Dia de Páscoa. Houve grande alegria entre a tripulação, e todos esperavam que essa terra baixa viesse a ser um prenúncio do litoral do desconhecido continente austral.
6. Tivemos uma brisa fraca de sudeste e de lés-sueste, ficando Padsch Eyland a oeste quarta a noroeste, a 8 ou 9 milhas de nós. Pusemos o rumo entre oeste quarta a sudoeste e noroeste, para navegar ao abrigo da ilha e evitar assim os perigos de uma costa a sotavento. Ao meio-dia, o rumo corrigido era Oeste, distância 10 milhas, latitude estimada de 27 graus e 4 minutos Sul e longitude de 265 graus e 42 minutos. Na nona ampulheta da tarde, vimos subir fumaça em vários lugares, de onde concluímos que a ilha era habitada. Pareceu-nos, pois, conveniente deliberar com os capitães dos outros navios se não seria necessário empreender uma expedição em terra, a fim de obtermos um conhecimento adequado do interior do país. Decidiu-se então que as duas chalupas dos navios Arend e Thienhoven, bem tripuladas e armadas, se dirigiriam à costa para encontrar um lugar conveniente para desembarcar um grupo dos botes e também fazer sondagens. Tomada essa decisão, bordejamos durante a noite com os nossos navios. Resolução que é a seguinte: —
CONSELHO dos Comandantes dos três Navios que navegam juntos, realizado a bordo do AREND, na presença dos abaixo-assinados.
Segunda-feira, 6 de abril de 1722.
Expondo o Presidente que havíamos chegado a umas duas milhas da Ilha Arenosa, a qual fica a leste do trecho de costa (ainda fora da vista) que é um dos objetivos desta Expedição descobrir, e como vimos subir fumaça em vários lugares, do que se pode razoavelmente concluir que a referida Ilha, ainda que se mostre arenosa e estéril, tem contudo habitantes humanos; propõe, pois, o Presidente que seria culposo proceder de modo descuidado e negligente, e que devemos bordejar esta noite com os nossos navios e, ao romper do dia, enviar para junto da terra duas chalupas bem tripuladas e devidamente armadas (para que estejamos em estado de defesa em caso de algum encontro hostil), e mostrar toda a amizade aos habitantes, procurando ver e indagar o que eles usam ou empregam, seja como ornamento, seja para outros fins, e também se é possível obter por troca alguns víveres frescos, como verduras, frutas ou animais. Discutida essa proposta, é ela aprovada e adotada por consenso geral; e decide-se ainda que as duas chalupas dos navios AREND e Thienhoven partam ao romper do dia, e que o African Galley as siga tão perto da terra quanto for possível e prudente, cobrindo e defendendo as ditas chalupas (caso haja necessidade). Assim resolvido e atestado no dito Navio e no dia acima mencionado. (Assinado): Jacob Roggeveen, Jan Koster, Cornelis Bouman, Roelof Rosendaal.
7. O tempo esteve muito variável, com trovoadas, relâmpagos e aguaceiros. O vento, instável, soprava de noroeste, com calmarias ocasionais, de modo que a nossa expedição a terra não pôde ser empreendida com alguma perspectiva de êxito. Durante a manhã, o capitão BOUMAN trouxe a bordo um nativo da Ilha de Páscoa, juntamente com a embarcação em que ele viera de terra até junto do navio; estava inteiramente nu, sem a menor cobertura para aquilo que o pudor se recusa a mostrar. Essa pobre criatura parecia muito contente de nos ver e mostrava o maior assombro diante da construção do nosso navio. Reparou especialmente na firmeza dos nossos mastros e vergas, na robustez do nosso cordame e da nossa enxárcia, nas velas, nos canhões — que apalpou de cima a baixo com minuciosa atenção — e em tudo o mais que viu; sobretudo quando a imagem das suas próprias feições lhe foi mostrada num espelho: ao vê-la, recuou de súbito e olhou então para o verso do vidro, aparentemente na esperança de ali descobrir a causa da aparição.
Depois de nos termos divertido bastante com ele, e ele conosco, mandamo-lo de volta em sua canoa rumo à praia, tendo-lhe posto ao pescoço dois fios de contas azuis1 e dado um pequeno espelho, uma tesoura e outras bugigangas semelhantes, que pareciam atraí-lo especialmente.
1) O original diz coraelen, isto é, contas.
Mas, quando nos aproximamos a pouca distância da terra, vimos claramente que a descrição da Ilha Arenosa e Baixa (assim descrita pelo capitão William Dampier, de acordo com a declaração e o testemunho do capitão Davis e do cronista Lionel Wafer, cujo diário desta e de outras descobertas o referido Dampier deu a conhecer pela imprensa e incluiu como parte destacada de seu livro, que abrange todas as suas próprias viagens) não correspondia em nada ao que havíamos encontrado; e que tampouco podia ser esta a terra que os referidos descobridores declaram ser visível 14 a 16 milhas além dela, estendendo-se a perder de vista, uma cadeia de terras altas que o dito Dampier conjecturou ser a extremidade da desconhecida Terra Austral. Que esta Ilha de Páscoa não pode ser a Ilha Arenosa fica claro pelo fato de que a arenosa é pequena e baixa, ao passo que a Ilha de Páscoa, pelo contrário, tem umas 15 ou 16 milhas de circunferência e possui em suas pontas leste e oeste — que distam cerca de cinco milhas uma da outra — dois montes altos, de encostas suaves, com três ou quatro outras colinas menores ao seu redor, que se elevam acima da planície, de modo que esta terra é de altitude moderada e fica fora do alcance da força do mar.
A razão por que, a princípio, quando ainda estávamos mais longe, havíamos tomado a dita Ilha de Páscoa por arenosa é que confundimos a erva ressequida, o feno e outros arbustos crestados e carbonizados com um solo dessa natureza árida, pois seu aspecto exterior não sugeria outra ideia senão a de uma vegetação extraordinariamente rala e mirrada; e os descobridores, por conseguinte, haviam-lhe dado o nome de arenosa.
Pode-se, pois, concluir, à luz da explicação precedente, que esta Ilha de Páscoa agora descoberta há de revelar-se alguma outra terra, situada mais para leste do que aquela que é um dos objetivos da nossa Expedição; ou então os descobridores devem ser tidos por culpados de todo um rol de mentiras em seus relatos, contadas tanto de viva voz como por escrito.
1) Cerca de seis furlongs.
8. Tivemos vento sul, sul quarta a sueste e su-sudoeste, com brisa de gávea rizada, instável. Depois do desjejum, a nossa chalupa foi bem tripulada e armada, assim como a chalupa do navio THIENHOVEN, agora junto à terra; e, tendo recebido as suas ordens, relataram que os habitantes dali estavam muito bem vestidos com tecidos de todas as cores e que faziam muitos sinais para que fôssemos a terra; mas, como as nossas ordens eram de não o fazer se os índios estivessem presentes em grande número, isso não foi permitido. Além disso, alguns julgaram ter visto que os nativos tinham placas de prata nas orelhas e conchas de madrepérola como ornamento ao pescoço. Ao pôr do sol, tendo entrado no ancoradouro, entre os navios Thienhoven e African Galley, que já se tinham posto à capa à nossa espera, lançamos âncora em 22 braças, fundo de coral, a um quarto de milha1 da praia, ficando a ponta leste da ilha a leste quarta a sueste e a ponta oeste a oés-noroeste de nós.
1) O Diário editado traz aqui uma nota no sentido de que a posteridade desta geração não era menos inclinada ao furto do que os seus pais
, e remete aos relatos de Cook, de La Pérouse e de Kotzebue sobre as experiências de cada um com eles nesse aspecto.
9. Muitíssimas canoas vieram até os navios: essa gente mostrou-nos então a sua grande cobiça por tudo o que via; e eram tão atrevidos que arrancavam os chapéus e os gorros da cabeça dos marinheiros e saltavam ao mar com o butim1; pois são nadadores extraordinariamente bons, como se pode deduzir do grande número deles que vinham a nado da praia até os navios. Houve também um nativo da Ilha de Páscoa que, de sua canoa, entrou pela janela da câmara do African Galley e, vendo sobre a mesa a toalha que a cobria e julgando-a uma boa presa, fugiu com ela ali mesmo; de modo que é preciso tomar especial cuidado em vigiar tudo de perto. Além disso, organizou-se uma expedição de 134 homens para desembarcar e fazer averiguações, a fim de prestar contas da nossa missão.
1) Ubasworteln, palavra híbrida inventada, do malaio ubi, inhame, e do holandês wortel, raiz.
2) O termo usado por Roggeveen é duymen: literalmente polegares, ou larguras de polegar, mas é a expressão holandesa comum para polegadas, das quais onze fazem um pé.
3) Para o relato de Behrens, ver o Apêndice I. Ele afirma: As suas orelhas eram tão compridas que lhes pendiam até os ombros. Alguns usavam ornamentos brancos nos lóbulos, como enfeite especial
.
4) Esse costume é mencionado por Cook e por Forster: ver a nota imediatamente anterior.
1) Isto é, tatuado, sem dúvida.
10. Pela manhã partimos com três botes e duas chalupas, tripulados por 134 pessoas, todas armadas de mosquete, pistolas e sabre; ao chegar à praia, os botes e as chalupas mantiveram-se bem juntos para lançar as fateixas, deixando neles vinte homens, armados como acima, para guardá-los; o bote do African Galley levava, além disso, duas caronadas na proa. Tomadas todas essas providências, avançamos em ordem aberta, mas mantendo-nos bem juntos, e escalamos as rochas, muito numerosas à beira-mar, até a terra plana ou planície, fazendo sinais com a mão para que os nativos, que se aglomeravam em grande número à nossa volta, se afastassem do caminho e nos dessem passagem. Chegados ali, formou-se um corps de bataille com todos os marinheiros dos três navios, à frente o Comodoro e os capitães KOSTER, Bouman e Rosendaal, cada um à cabeça de sua própria tripulação. Essa coluna, de três fileiras de largura, que ocupava uma posição à retaguarda das demais, era coberta por metade dos soldados, sob o comando do tenente NICOLAAS Thonnar, formando a ala direita; e a esquerda, composta pela outra metade da tropa, era comandada pelo Sr. MARTINUS KEERENS, alferes. Dispostas assim as nossas forças, avançamos um pouco para dar lugar a alguns dos nossos que vinham atrás, a fim de que entrassem em forma, e os homens foram detidos para que os últimos os alcançassem, quando, de modo totalmente inesperado e para nosso grande espanto, ouviram-se quatro ou cinco tiros na nossa retaguarda, junto com um grito vigoroso de 't is tyd, 't is tyd, geeft vuur!
[É hora, é hora, fogo!
]. Diante disso, como num instante, dispararam-se mais de trinta tiros, e os índios, atônitos e assustados, fugiram, deixando 10 ou 12 mortos, além dos feridos.
1) Alguns dos cavalheiros que percorreram a ilha e examinaram muitas delas foram de opinião que a pedra de que eram feitas diferia de todas as outras que viram na ilha e tinha toda a aparência de ser artificial.
Cook, Bibl. n.º 16.
Essa gente tem membros bem proporcionados, com músculos grandes e fortes; são de estatura avantajada, e a sua cor natural não é negra, mas amarelo-pálida ou amarelada, como vimos em muitos dos rapazes, quer porque não tinham pintado1 o corpo de azul-escuro, quer porque eram de condição superior e não precisavam, portanto, de trabalhar no campo. Essa gente tem também dentes brancos como a neve, dos quais são excepcionalmente bem providos, mesmo os velhos e encanecidos, como se viu quando quebraram uma noz grande e dura, cuja casca era mais grossa e resistente do que os nossos caroços de pêssego. O cabelo e a barba da maioria deles eram curtos, embora outros o usassem comprido, caído pelas costas, ou trançado e enrolado no alto da cabeça numa trança, como os chineses de Batávia, o que ali se chama condt.
2) A descrição que Roggeveen faz das estátuas parece mostrar que ele nunca chegou perto de nenhuma delas, vendo-as apenas a uma distância de algumas centenas de jardas. O seu ‘cesto’ era sem dúvida um dos cilindros coronoides de rocha tufácea que encimavam a maioria das figuras.
1) A entrada fica no meio de um dos lados, em forma de alpendre, e é tão baixa e estreita que mal permite a um homem entrar de quatro.
Cook, Bibl. n.º 16.
Em que consiste o culto dessa gente, não pudemos obter conhecimento completo, devido à brevidade da nossa estada entre eles; notamos apenas que acendem fogo diante de certas figuras de pedra notavelmente altas que erguem; e, depois, agachados sobre os calcanhares e de cabeça baixa, juntam as palmas das mãos e as levantam e abaixam alternadamente.
2) Ou têm poucas mulheres entre eles, ou muitas foram impedidas de aparecer durante a nossa estada
, diz Cook. Cook, Bibl. n.º 16.
2) A maior casa que vi tinha cerca de sessenta pés de comprimento, oito ou nove pés de altura no meio e três ou quatro em cada extremidade; a sua largura nessas partes era quase igual à altura.
Cook, Bibl. n.º 16.
Era-nos incompreensível como essa gente cozinha os seus alimentos, pois ninguém conseguiu perceber nem descobrir que tivessem potes, panelas ou vasilhas de barro.
2) São construídas, ou antes revestidas, com pedras lavradas de tamanho muito grande; e o trabalho não fica atrás da melhor alvenaria simples que temos na Inglaterra. Não usam nenhum tipo de argamassa; no entanto, as juntas são extremamente cerradas, e as pedras, encaixadas umas nas outras por meio de entalhes e espigas, de maneira muito engenhosa.
Cook, Bibl. n.º 16.
3) A palavra no original é stoep. Não há expressão sinônima em inglês, embora ‘porch’ (alpendre), ‘threshold’ (soleira) ou ‘piazza’ (pórtico) correspondam de certo modo.
Impedidos, então, de fazer uma investigação suficientemente detalhada, concluímos que deviam ter, debaixo da terra, grandes pedras de sílex ocas, que contêm água quando se põem a ferver alguma coisa.
Essas moradias não têm mais do que uma entrada, tão baixa que se entra de joelhos, rastejando; é redonda em cima, como uma abóbada ou arco1; o telhado também tem a mesma forma.
Sexta-feira, 10 de abril1 de 1722.
Tendo o Presidente convocado os Comandantes desta Expedição, a fim de que cada um apresentasse as suas ideias e opiniões a respeito da Ilha recém-encontrada, a saber: se, em vista desta descoberta, a Resolução considerada e adotada por este Conselho no dia 2 do corrente deve ser pontualmente observada e cumprida, ou se, pelo contrário, devemos prosseguir o nosso rumo mais cem milhas para oeste, visto que esta terra descoberta2 (por nós chamada Padsch Eyland, por ter sido avistada e descoberta no Dia de Páscoa) não pode ser considerada uma Ilha pequena, baixa e arenosa, pois abrange dezesseis milhas holandesas de circunferência e é uma terra bastante alta3, a qual estava a 8 ou 9 milhas de nós quando o African Galley fez o sinal de terra à vista. Essa distância pode, com segurança, ser tida por correta, visto que levamos todo o dia seguinte, com brisa fresca, para chegar, ao cair da tarde, a umas duas milhas dela. Tampouco se pode chamar arenosa a referida terra, pois a achamos não só nada arenosa, mas, pelo contrário, extremamente fértil, produzindo bananas, batatas, cana-de-açúcar de notável grossura e muitas outras espécies de frutos da terra, embora desprovida de árvores grandes e de animais domésticos, exceto aves domésticas. Este lugar, no que toca ao seu solo rico e ao seu bom clima, é tal que poderia ser transformado num Paraíso terrestre, se fosse devidamente trabalhado e cultivado, o que agora só se faz na medida em que os Habitantes são obrigados a isso para a manutenção da vida. E, além disso, é de todo impróprio dar a esta descoberta o nome de cadeia de terras altas, supondo-se que, por má sorte, tenhamos passado pela Ilha Baixa e Arenosa sem a ver, o que não é provável, pois o nosso rumo foi traçado de tal maneira que a teríamos inevitavelmente avistado, caso esta Ilha de Páscoa seja a terra descrita como uma cadeia de terras altas. Pode-se, portanto, concluir com boa razão que esta Ilha de Páscoa é outra terra que não alguma das que procuramos, e que uma parte da nossa viagem está cumprida, visto que não apresenta as características próprias da terra que esperamos encontrar. O Presidente submete todas as observações acima à consideração deste Conselho, a fim de se valer de suas opiniões como convier.
1) Por uma curiosa coincidência, a visita de La Pérouse também ocorreu em 10 de abril: sessenta e quatro anos depois.
2) Os parênteses estão mal colocados no Diário holandês, tal como editado, onde aparecem antes da palavra omdat, ‘visto que’. Deveriam evidentemente vir depois da palavra ‘descoberta’, como agora traduzido.
3) O pico mais alto da Ilha de Páscoa atinge 1.767 pés. Dois outros têm, respectivamente, 1.327 e 1.323 pés acima do nível do mar. Cook diz: “Os montes são de tal altura que podem ser vistos a quinze ou dezesseis léguas.”
Ao que, tendo sido todos esses pontos atentamente notados e maduramente ponderados, resolve-se por unanimidade que, indiscutivelmente, a referida Ilha de Páscoa não corresponde em nada à descrição de uma cadeia de terras altas, sendo de elevação apenas moderada; que, além disso, é absolutamente impossível que aqui ocorram metais finos, pois aprendemos por experiência, por inspeção ocular, que os Habitantes não possuem nenhum e empregam como vestimenta e ornamento apenas certos produtos de origem vegetal; e que sabem costurá-los, com graça e esmero, em três ou quatro camadas de espessura, para maior calor e resistência. Ademais, que entrançam como ornamento algumas penas de aves domésticas (das quais, no entanto, muito poucas se viram), formando um diadema que usam na cabeça; e pintam o rosto, bem como outras partes do corpo, com desenhos regulares e bem proporcionados, de tal maneira que um lado do corpo corresponde ao outro; usam ainda algumas conchas chatas como ornamento ao pescoço e tapam a fenda dos lóbulos das orelhas com uma espécie de raiz (com a forma das nossas pastinacas) para enfeitar as orelhas. Mais ainda, que não vimos a Ilha pequena, baixa e arenosa que deve ser o posto avançado e o verdadeiro sinal da terra que procuramos; portanto, por consenso unânime, acorda-se e declara-se que prossigamos o rumo oeste ao longo do paralelo de 27 graus de latitude Sul até termos navegado mais cem milhas e que, lá chegados, nos guiemos pelas circunstâncias e tomemos as medidas que então forem julgadas convenientes.
Assim resolvido no Navio e no dia acima indicados. (Assinado) Jacob Roggeveen, Jan Koster, Cornelis Bouman, Roelof Rosendaal.
Resta apenas dizer, para concluir o assunto dessas cabanas, que não vimos mais do que seis ou sete delas no lugar onde desembarcamos, do que se pode claramente inferir que todos os índios usam os seus bens em comum.
Por fim, quanto às suas embarcações, são de construção pobre e frágil; pois as suas canoas são montadas com uma porção de pequenas tábuas e cavernas leves, que eles amarram com habilidade usando um cordel torcido muito fino, feito do já mencionado produto vegetal Piet.
Aprovada e assinada essa resolução, o capitão Jan Koster sugeriu, para discussão, que seria coisa muito fácil e simples verificar se a referida Ilha de Páscoa é realmente a terra que buscamos e para a qual dirigimos o nosso rumo, se fizéssemos agora apenas um breve Cruzeiro, navegando 12 milhas para leste, e que os navios se mantivessem a duas milhas uns dos outros, voltando, porém, a navegar juntos caso se avistasse uma ilha baixa e arenosa, o que demonstraria ser verdade que a referida Ilha de Páscoa é a terra que pretendíamos descobrir. E, caso não avistássemos a dita Ilha Arenosa, então a mencionada Ilha de Páscoa teria necessariamente de ser outra terra (embora situada bem no nosso caminho) que não aquela para onde se dirige a nossa expedição. Além disso, que, se a Ilha Arenosa fosse descoberta, se traçasse um rumo para o norte, a fim de alcançar o alísio mais constante e mais forte, para levar adiante o segundo ponto da nossa Viagem, já que o primeiro se cumpriria, e assim terminaria, ao encontrarmos a mencionada Ilha Arenosa. Tudo isso, uma vez considerado, foi aprovado e adotado por consenso geral.
Assim resolvido e determinado no Navio e no dia da Resolução precedente. (Assinado) JACOB ROGGEVEEN, Jan Koster, Cornelis Bouman, Roelof Rosendaal.
11. O vento hoje foi de nor-noroeste e noroeste, com brisa de gávea e mar grosso. Largamos a âncora de leva e arriamos as vergas do traquete e da vela grande. Por volta da quarta ampulheta do primeiro quarto, rompeu-se a amarra de trabalho do navio THIENHOVEN; e, perguntados aos gritos se precisavam de ajuda, responderam que ‘Não’.
[Fim do extrato do diário de Roggeveen]
NOTA do editor: O desejo dos exploradores estava destinado a ser frustrado; e as páginas seguintes do Diário nada contêm de pertinente ao presente assunto. Nenhuma terra foi avistada no rumo oeste, ao longo do paralelo da Ilha de Páscoa; e, em 21 de abril, Roggeveen convocou outra reunião de seus oficiais, incluindo desta vez nas deliberações os pilotos-chefes. Concluiu que a Ilha de Páscoa devia ser idêntica ao chamado Continente Austral de Davis, Wafer e Dampier, e que a cadeia de terras altas
que agora procuravam devia ser imaginária.
Tal é o relato oficial escrito pelo Sr. Jacob Roggeveen, o Comodoro de sua expedição — um relato que, por pouco conhecido que pareça ser ainda hoje, há muito deveria ter relegado ao reino das lendas a história sensacionalista da Tweejarige Reize.
B. G. C.
Relato do sargento-mor Carl Friederich Behrens
Traduzido do alemão de CARL FRIEDERICH BEHRENS: Der wohlversiichte Süd-Länder y das ist: ausführliche Reise-Beschreibung um die Welt.
Arquivo de origem (.pdf): The voyage of Captain Don Felipe González to Easter Island 1770-1, p. 224–230
Daqui1 pusemos rumo à Terra de David, ou parte da Terra Austral, a ONO.
1) Isto é, a maior das ilhas Juan Fernández, a mais próxima do continente.
2) O Bachelor's Delight, 1687.
3) Lionel Wafer.
Fazíamos bom caminho dia após dia, pois o alísio de sudeste nos era muito favorável e nos acompanhou na maior parte do Mar do Sul.
4) Phaeton aether eus.
Seguimos mais 12° a oeste da longitude acima mencionada, e todos os dias tínhamos à nossa volta aves terrestres e marinhas, que nos fizeram companhia até que, por fim, avistamos uma ilha em 6 de abril, que era o nosso primeiro Dia de Páscoa1, com o que muito nos alegramos.
1) Tinham partido da Holanda em 1.º de agosto do ano anterior, 1721.
2) Deve tratar-se aqui de milhas legais alemãs.
Ficamos junto à terra a noite toda até de manhã, quando seguimos para sudeste, rumo a uma baía ou reentrância da costa, para fundear.
1) Este número vem em algarismos, mas, por um defeito do tipo, só o 0 saiu impresso. Presumivelmente significa 50.
Muitos deles foram mortos a tiro nessa ocasião; e entre os mortos jazia o homem que estivera antes conosco, o que muito nos entristeceu.
Até onde penetramos nessa ocasião, não encontramos animais, exceto várias espécies de aves; mas pode haver muitos outros animais mais para o interior do país, pois os nativos pareciam conhecer porcos quando viram alguns a bordo dos nossos navios.
Os nativos preparam as suas refeições em potes de barro ou de terra. Cada casa nos pareceu ter os seus.
As casas tinham de quarenta a sessenta pés [schuh] de comprimento, seis a oito pés [schuh] de largura e altura semelhante; eram erguidas sobre estacas de madeira, revestidas de barro e cobertas com folhas de palmeira.
Não se encontrou dentro das casas nenhum móvel digno de nota, exceto algumas cobertas vermelhas e brancas [decken], que eles muitas vezes usam como vestimenta e também para se cobrir ao dormir.
Esses nativos eram todos alegres e bem-dispostos, bem constituídos, de membros fortes, não propriamente esbeltos, mas ágeis; amistosos e agradáveis no trato, mas também submissos e muito tímidos.
Quanto à tez, são morenos, mais ou menos da cor de um espanhol, mas encontram-se entre eles alguns de tom mais escuro e outros bem brancos, e também alguns de tom avermelhado, como se tivessem sido fortemente queimados pelo sol.
1) Pisang é o termo genérico malaio para banana.
As mulheres tinham o rosto, na maior parte, riscado com um pigmento vermelho, de um tom muito mais vivo do que qualquer outro que tenhamos visto ou encontrado em outro lugar; mas não sabemos de que fazem essa bela cor.
O povo não tinha, a julgar pelas aparências, arma alguma; porém, como observei, confiava, em caso de necessidade, em seus deuses ou ídolos, que se erguem em grande número ao longo de toda a costa, diante dos quais se prostram para invocá-los.
