Diários de bordo da viagem do capitão Don Felipe González em 1770

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  1. Oficial Don Francisco Antonio de Agüera y Infanzon, piloto-chefe
  2. Segundo-tenente Don Juan Hervé, primeiro piloto, ou oficial de navegação mais antigo, do San Lorenzo

Estes são os diários da viagem do espanhol Don Felipe González, feita por ordem de Sua Excelência o Señor Don Emanuel de Amat, vice-rei do Peru. A expedição partiu de Lima, no Peru, com o navio de S.M. (Sua Majestade) San Lorenzo, sob o comando do comodoro Don Felipe González, e a fragata Santa Rosalia, sob o comando do capitão Don Antonio Domonte. Durante essa expedição, Rapa Nui, então chamada Ilha de David, foi anexada à Espanha. A Espanha logo esqueceu essa anexação, por causa da localização remota de Rapa Nui e porque não via nenhum proveito em possuir a ilha.

Oficial Don Francisco Antonio de Agüera y Infanzon, piloto-chefe

Transcrito, traduzido e editado por Bolton Glanvill Corney. Publicado em 1908.

Arquivo de origem (.pdf): The voyage of Captain Don Felipe González to Easter Island 1770-1, p. 181–196

Mapa antigo (1770) da Ilha de Páscoa (Rapa Nui), do oficial Don Francisco Antonio de Agüera y Infanzon
Mapa de Rapa Nui desenhado pelo oficial Don Francisco em 1770.

Quinta-feira, 15. Às cinco horas da manhã fizemo-nos à vela, largando todo o pano, en vuelta de uno, com o horizonte nublado; mas às sete e meia clareou, e avistamos terra pela proa.

Estando nesta posição, a ponta leste da ilha ficava a oeste, em marcação verdadeira; e, calculando a distância percorrida desde a observação do meio-dia, achei-me na latitude de 27° 2', que deve ser a verdadeira posição da ponta leste da Ilha de David no que diz respeito à latitude2; e, quanto à longitude, visto que hoje ao meio-dia me achava a 267° 2' de Tenerife, e como tínhamos navegado com desvio muito pequeno sobre o mesmo meridiano, restava apenas uma milha de diferença, considerando que estávamos a essa distância da terra. Digo, portanto, que, segundo os meus cálculos feitos durante a travessia, a ponta mais oriental da Ilha de David está situada a 27° 2' de latitude S. e a 267° 1' de longitude de Tenerife, ficando assim, em relação à Ilha de San Lorenzo, defronte de Callao, a OSO 6° S. e ENE 6° NE., a uma distância de 625 léguas de 20 ao grau; e estando 38° a oeste do meridiano de Copiapó e, por conseguinte, a 680 léguas do continente chileno. O perfil da ilha voltado para leste estende-se por cerca de 14 a 16 milhas, e as pontas sul e norte ficam a ENE e OSO.2

1) A posição real fica 4 ½ milhas mais ao sul e 22 milhas mais a leste, tomando-se o cabo O'Higgins como ponto de referência.

2) Essas marcações provavelmente deveriam estar invertidas, ou as palavras ‘sul’ e ‘norte’, trocadas.

Depois de passar a ponta mais setentrional, avistamos outra baía, que se abria para ONO e parecia mais conveniente do que a primeira: pusemos o navio em facha e o Comodoro arriou o seu bote, enviando-o armado à dita baía e fazendo-nos sinal para fazer o mesmo. Às quatro e meia da tarde, o nosso bote partiu com Don Juan Bentuza1 Moreno, capitão de Batallones, e o guarda-marinha Don Joseph Morales, escoltados por doze soldados, um sargento e dois cabos providos de munição. Embarcaram também o piloto costeiro da fragata e um ajudante de piloto, com os instrumentos do seu ofício, e seguiram para a baía, onde o bote do Comodoro já fazia sondagens. Ficamos com pouco pano, dando bordos curtos, à espera do regresso do grupo de exploração, que ao pôr do sol se retirou, tendo nós avançado com o navio para além do centro da baía para recebê-lo. Vimos muitos nativos na praia. O ancoradouro que encontraram é totalmente desprotegido, e o fundo é de má qualidade. Passamos a noite com pouco pano e, por vezes, à capa, mantendo-nos à altura da baía.

1) ‘Juan Bentuza’ é evidentemente um erro de copista por Buenaventura.

Sexta-feira, 16. Ao nascer do sol, observei a variação da agulha e anotei 2° 30' para NE.

Comecei esta tarde a sondar a baía, e o fundo que encontramos não é dos melhores para garantir a segurança dos navios.

1) Um estadal, ou estada, equivale a quatro varas de cerca de 33 polegadas cada, isto é, 11 pés.

Sábado, 17. O vento manteve-se fraco, de NE a N. Hoje grande número de nativos de ambos os sexos veio a bordo dos dois navios; achamo-los muito francos e agradáveis; a maioria trouxe bananas-da-terra, raízes, galinhas etc., e oferecia de bom grado os míseros farrapos de roupa e outros bens que trazia consigo, até ficar reduzida a uma miserável tanga de fibra ou de algodão ou de coisa semelhante, com um diadema, ou coroa, ou penacho de penas de galo ou de algas secas. As mulheres usam as mesmas vestes e, para distinguir o seu sexo, cobrem a cabeça com uma curiosa construção de folha de palmeira [ojas] ou de juncos finos. São, como os homens, importunos no pedir; mas todos cedem com a mesma franqueza tudo o que possuem, e as mulheres chegam ao ponto de oferecer, com demonstrações convidativas, todas as homenagens que um homem apaixonado pode desejar. Tampouco parecem transgredir nisso, na opinião dos seus homens, pois estes até as oferecem, à guisa de atenção para conosco. Como não tivemos oportunidade de investigar os costumes que observam em matéria de assuntos conjugais [propagation], só se pode inferir que as mulheres que vimos são possuídas em comum entre eles, embora tenhamos notado que os homens mais velhos e importantes conservam certa preferência nesse ponto, pois são sempre eles que as acompanham e as oferecem, e é a eles que as mulheres obedecem, e não aos mais jovens, com quem nunca as vimos juntas. De modo que se nota um comportamento mais recatado entre os rapazes e as moças do que entre os mais velhos.

As moças são recatadas por temperamento, pois, apesar de toda a sua nudez, sempre conseguem cobrir os seios etc. tanto quanto possível.

1) O palmo castelhano equivale a 8 1/3 polegadas.

Nunca vimos a sua bravura posta à prova, mas suspeito que sejam pusilânimes; não possuem armas e, embora tenhamos observado em alguns diversas feridas no corpo, que julgamos terem sido feitas por instrumentos cortantes de ferro ou aço, verificamos que provinham de pedras, que são as suas únicas [armas de] defesa e ataque, e, como a maioria delas tem gume afiado1, produzem os ferimentos referidos.

1) Obsidiana.

Fiz, à guisa de experiência, um arco com flecha, devidamente encordoado, e, ao entregá-lo a um dos que tinham cicatrizes, ele imediatamente o pôs na cabeça como ornamento e depois o pendurou ao pescoço com muita alegria, ignorando totalmente o seu uso e efeito. Fizeram o mesmo com uma faca e com um sabre, que pegavam indiferentemente pela ponta ou pelo punho.

Parece-me que têm ministros ou sacerdotes para os seus ídolos; porque observei que, no dia em que erguemos as cruzes, quando os nossos capelães acompanhavam as imagens sagradas, vestidos com as suas batinas e sobrepelizes, entoando as ladainhas, muitos nativos se adiantaram até o caminho e ofereceram os seus mantos, enquanto as mulheres apresentavam galinhas e frangas, e todos gritavam Maca Maca, tratando-os com muita veneração até que tivessem passado as rochas que atravancavam a trilha que seguiam.

1) O palmo castelhano equivale a 8 1/3 polegadas. 8 ½ palmos correspondem, portanto, a 6 pés menos uma polegada.

2) 6 pés e 5 polegadas.

3) 6 pés e 6 ½ polegadas.

Domingo, 18. Os nativos vieram a bordo em número ainda maior do que nos dias anteriores, de modo que neste dia houve mais de 400 na fragata. Entre homens e mulheres, aglomeravam-se em tal multidão que foi preciso mandar alguns embora para dar lugar a outros, pois não cabiam todos a bordo. Hoje ao meio-dia observei com o maior cuidado a latitude desta baía, que achei ser de 27 26'; e comecei nesse mesmo dia a fazer um esboço dela, com o contorno, vistas e sondagens exatas, a fim de construir uma carta tão precisa quanto possível, que pudesse servir de guia e registro para o futuro; embora deva dizer-se que, por certos impedimentos, não foi possível fixar em terra uma linha de base para as operações trigonométricas.

Segunda-feira, 19. Às 10 da manhã avistamos as nossas lanchas, que vinham da parte leste da ilha, e o nosso escaler foi destacado para rebocar a nossa, que tinha o vento pela proa. O Comodoro fez o mesmo com a sua. A nossa lancha chegou ao costado à uma hora da tarde, com toda a sua gente, depois de ter dado a volta completa à ilha; e por esse meio obteve-se o relato seguinte.

Na tarde deste dia, durante uma rajada de chuva com pouco vento de SO, rompeu-se a nossa amarra, que se desgastara por completo contra uma rocha de coral, da qual vieram fragmentos presos entre os cordões das duas pontas partidas. Ocupamos a noite com os preparativos para o dia seguinte, em que devíamos desembarcar formalmente, tomar posse da ilha e erguer nela três cruzes que tinham sido aprontadas para esse fim a bordo do navio do Comodoro.

Terça-feira, 20. O dia amanheceu com o horizonte encoberto e vento fraco de ESE, com rajadas ocasionais; mas o Comodoro decidiu levar adiante, mesmo assim, a expedição projetada, e para isso destacaram-se 250 homens, entre soldados e marinheiros, para desembarcar, bem armados e sob o comando de Don Alberto Olaondo, primeiro-tenente e capitão de infantaria de marinha, com outros oficiais e subalternos, e com instruções de avançar terra adentro em direção ao lado oeste da ilha, para fazer um reconhecimento da região e atrair para lá a atenção dos nativos enquanto as três cruzes mencionadas eram erguidas em três outeiros que ficam na extremidade leste.

Essa precaução não foi tomada por algum receio de que os nativos se opusessem à execução [do nosso projeto], mas apenas para evitar o tumulto com que procedem em todas as suas ações, pois nos atrapalhariam tanto que nos atrasariam consideravelmente. Enquanto as lanchas e os botes levavam a primeira turma para terra, preparava-se a segunda, de número semelhante, comandada por Don Buenaventura Moreno, primeiro-tenente e capitão de infantaria de marinha, com os oficiais necessários, entre os quais fui incluído por ordem do Comodoro, a fim de estabelecer as marcas e bases adequadas para a elaboração da planta mais exata e do traçado mais fiel do litoral desta baía, e para fixar as posições das elevações mais notáveis da ilha.

Quando os botes da primeira turma voltaram, partimos na mesma ordem, escoltados por tropas desta fragata, acompanhando as três cruzes com bandeiras desfraldadas e tambores rufando. Desse modo, e em excelente ordem, chegamos a uma pequena baía que fica a leste e que fora escolhida para o desembarque por ter a única extensão de praia conveniente de todo o ancoradouro. Desembarcamos ali sem encontrar nenhum obstáculo e fomos recebidos por uma considerável multidão de nativos, que manifestavam muita alegria, com grande gritaria. Formado o grupo, junto com os que portavam armas, pusemo-nos em marcha, acompanhados pelos nativos, que ajudavam de boa vontade a carregar as cruzes, cantando e dançando à sua maneira pelo caminho. Demos toda a volta da baía com algum custo, pois o terreno era áspero e acidentado, embora plano, e um grande séquito de nativos juntou-se à nossa volta durante todo o tempo, até o pé da subida, onde a maior parte deles nos deixou por causa da natureza penosa e longa da ascensão. À uma e meia chegamos ao lugar onde as cruzes deviam ser erguidas, o que se concluiu com grande regozijo, depois da bênção e da adoração das imagens sagradas por toda a multidão, e, vendo isso, os nativos fizeram a mesma cerimônia. Plantadas as cruzes em seus respectivos cumes, içou-se a bandeira espanhola e, com a tropa em posição de ‘Sentido!’ e de armas na mão, Don Joseph Bustillo, capitão mais moderno, tomou posse da ilha de San Carlos com as cerimônias de costume, em nome do Rei da Espanha, nosso senhor e amo Don Carlos III, neste dia, 20 de novembro de 1770. O ato foi devidamente testemunhado com as formalidades próprias; e, para maior confirmação de ato tão sério, alguns dos nativos presentes assinaram ou atestaram o documento oficial, traçando nele certos caracteres de sua própria forma de escrita. Demos então sete vivas ao rei, seguidos de uma salva tripla de mosquetaria de todo o grupo e, por fim, os nossos navios salvaram com 21 tiros de canhão. Concluída a cerimônia e reunida toda a gente em ordem de marcha, voltamos ao mesmo lugar onde havíamos desembarcado e onde nos esperavam as nossas lanchas e botes. Neles fomos levados a bordo, e todos os oficiais, um após o outro, apresentaram então as suas felicitações e congratulações ao Comodoro, que marcou para o dia seguinte a partida da baía, uma vez que a sua missão ali estava felizmente concluída.

Nem é preciso dizer que os ilhéus ficaram aterrorizados com o estrondo dos canhões e da mosquetaria: é o que deve acontecer a gente que nunca usou nem viu tais invenções.

Imagino que os mantos ou capas desses ilhéus sejam feitos das fibras dos caules da bananeira, que, depois de secas, eles juntam como melhor lhes convém1: o tecido não é tramado, mas unido por fios do mesmo material, que eles enfiam em agulhas de osso do tamanho de uma agulha de alfaiate. Fazem linhas de pesca dessa mesma fibra, bem como redes ao estilo das nossas redes pequenas, mas pouco resistentes.

Têm muito pouca madeira; mas, se plantassem árvores, não lhes faltaria; e creio que até o algodoeiro daria, pois a terra é muito temperada, assim como o trigo, as hortaliças, as ervas de cheiro etc. Tingem os seus mantos de amarelo.

No dia 21, ao meio-dia, fizemo-nos ao mar desta Ilha de David: navegamos umas 70 léguas para oeste, para ver se havia mais terra naquela direção.

Segundo-tenente Don Juan Hervé, primeiro piloto, ou oficial de navegação mais antigo, do San Lorenzo

Transcrito, traduzido e editado por Bolton Glanvill Corney. Publicado em 1908.

Arquivo de origem (.pdf): The voyage of Captain Don Felipe González to Easter Island 1770-1, p. 208–218

No dia 15, às cinco da manhã, largamos todo o pano, e às sete horas avistamos uma ilha a NO de nós, a 8 ou 10 léguas de distância. Rumamos para ela e, quando estávamos a umas três léguas de sua costa leste, vimos que era toda escarpada e cercada de rochedos, razão pela qual, ao meio-dia, decidimos arribar para o lado norte e ver se encontrávamos algum porto por ali. Nessa hora, a nossa posição, verificada por observação, era de 27° 15' de latitude S. e 264° 20' de longitude, de modo que a outra ponta1 devia estar a 27° 06' de latitude Sul e, portanto, a 34 10' a oeste do meridiano de Callao, medidos pelo arco, ou o equivalente a uma corda de 30° 30'. A esta ilha demos o nome de San Carlos, que é o do rei reinante.

Desde o dia 6 de novembro 82, dia em que avistamos os petréis, até chegarmos à ilha de San Carlos, navegamos para O. uma distância de 86 léguas, e os trinta-réis foram vistos ao longo dessa mesma distância, no mesmo período.

1) Isto é, a ponta NE da ilha.

2) Talvez seja um erro de copista. O dia em que os petréis foram registrados foi o 10. Em seu diário, Agüera menciona-os no dia 12 como tendo sido avistados na véspera. O próprio González não os menciona em seu diário de bordo.

A partir do dia 13 do dito mês, quando vimos tantas aves, e entre elas as brancas, e as primeiras destas, navegamos para O. por mais 32 léguas; e, desde que vimos os maçaricos [chorlitos] até a ilha, navegamos 10 léguas, de modo que, quando os vimos, a ilha ficava a NO de nós, a 13 ½ léguas, razão pela qual navegamos nesse rumo depois de avistar os maçaricos e a ilha: estas observações só interessam aos navegadores.

No dia 16, às cinco e meia da manhã, deixei o costado do navio no cúter e fui posicionar-me onde ficava o ancoradouro dos botes, para servir de marca ao navio, que entrou e fundeou em 35 £ braças, areia grossa; e, tendo largado outra âncora em 50 braças, o navio rodou, ficando com 28 debaixo da quilha, no mesmo fundo. As marcas de referência para esta posição são o pequeno monte em forma de sela, a S. 3° O., e o cabo San Lorenzo a E. 1/4 SE. 3° E. pela agulha, que nesta localidade tem 3° de variação NE.

Enquanto servia de baliza, como acima dito, e aguardava a chegada do navio, três dos nativos vieram a nado, [com o corpo] pintado de várias cores, e mantiveram-se junto ao bote, gritando sem parar, até que um deles chegou tão perto que me ofereceu um pedaço de inhame: dei-lhe biscoito e tabaco, que ele aceitou. Levava as suas provisões numa bolsa graciosamente trançada de palha fina. Quando o navio fundeou, os três voltaram para terra, mas regressaram a nado com mais um, dirigindo-se direto ao navio, a bordo do qual subiram com muita agilidade, gritando o tempo todo e mostrando grande alegria. Corriam livremente da proa à popa, cheios de júbilo, e trepavam pelo cordame como marinheiros. [Os nossos] tocaram para eles a coxa e o pífaro, e eles começaram a dançar, mostrando grande prazer. Deram-lhes fitas, camisas, calças, japonas de marinheiro e pequenas cruzes de metal dourado: aceitaram tudo com alegria; o biscoito, receberam-no sem comentários, até verem os nossos comê-lo. Agradou-lhes muito, e então pediram mais, e entregaram-se à vontade ao consumo de toucinho salgado, arroz etc.

No dito dia 16 de novembro, à uma hora da tarde, embarcamos na lancha Don Cayetano Lángara, primeiro-tenente, Don Pedro Obregon, guarda-marinha, um sargento, um cabo de infantaria de marinha, um artilheiro, alguns fuzileiros e eu, todos bem armados e equipados para o serviço, com ordens de dar a volta completa à ilha em companhia da lancha da Rosalia, com o seu oficial, Don Demetrio Ezeta, primeiro-tenente, cada uma com um canhão giratório na proa. Pusemo-nos a fazer sondagens, dando nomes às pontas, baías etc., como se vê na planta da ilha. Às seis e meia da tarde paramos numa enseada que batizamos com o nome de Lángara: tentamos desembarcar, mas não foi possível, pois o mar rebentava com muita força ao longo de toda a costa, rochosa em todos os pontos; e, no resto do dia, o único lugar que achamos próprio para desembarcar foi a enseada de San Juan, por ter uma praia de areia. Não demos a conhecer ali a nossa presença, para não perder tempo. Julgamos que devia ter abundância de água doce, porque vimos ali mais cascalho [chacaras] do que em qualquer outra parte da ilha. Encontramos também o melhor ancoradouro para os navios.

No dia 17 do dito [mês], o dia amanheceu com o horizonte limpo e brisa moderada de leste. Às cinco da manhã saímos com as duas lanchas e fizemo-nos à vela rumo ao cabo de San Antonio. Meia légua antes de chegar ao cabo, passamos à altura de uma ponta diante da qual havia uma porção de rochas ou penedos que saíam da água; e vimos que de entre eles saíam duas canoazinhas, com dois homens em cada uma, em direção à lancha da Santa Rosalia; esperamo-las, então, para que se juntassem ao nosso grupo. Deram à gente da dita lancha bananas-da-terra, pimentas, batatas-doces e galinhas; e, em troca, os nossos homens deram-lhes chapéus, chamorretas etc., com o que voltaram contentes para a praia. Essas canoas são feitas de cinco tábuas extremamente estreitas (por não haver madeira grossa na terra), de cerca de uma cuarta1 de largura; são, por isso, tão instáveis que têm um flutuador lateral para não virarem; e creio que são as únicas de toda a ilha. As tábuas são unidas com cavilhas de madeira em vez de pregos. Passamos então a examinar as ilhotas rochosas a que demos o nome de ‘Lángara’: ficam a SO 1/4 S. do cabo de San Cristoval, a mais afastada a cerca de uma milha desse promontório e a mais próxima entre os dois. Distam cerca de meia amarra uma da outra, e encontramos ali 26 braças, fundo de pedra. A do meio parece uma alta torre de igreja; tentamos pôr pé nela, mas achamo-la pouco acessível. Passamos à de fora, onde conseguimos desembarcar e onde encontramos duas grandes massas de algas, muitas pederneiras negras, alguns ouriços-do-mar e pequenos caranguejos, ovos de gaivotas e os seus filhotes. Só nessas rochas vimos gaivotas, e, além das galinhas, não vimos nenhuma outra espécie de ave nas outras ilhotas, nem na ilha de San Carlos, pequena ou grande, selvagem ou doméstica. Os ilhéus criam essas galinhas em pequenos cercados escavados no chão e cobertos de palha.

1) Uma cuarta é um quarto de vara, ou jarda, e pode traduzir-se aproximadamente por ‘palmo’.

Examinadas essas ilhotas, seguimos o nosso caminho ao longo da costa, ora à vela, ora a remo; e, como o vento continuava contrário, às três da tarde rumamos para um trecho de praia tranquilo, a cerca de uma légua a NE do cabo San Francisco. Ali decidimos passar a noite numa pequena baía que nos pareceu adequada para isso, e à qual demos o nome de baía da Caverna, porque havia ali uma caverna junto à praia, com sulcos de várias cores, de onde, como os nativos nos deram a entender por sinais, eles tiravam os pigmentos com que se pintam. Essa baía só serve para lanchas. Fomos todos a terra fazer a nossa refeição, que levávamos conosco para esse fim, e uns cem nativos vieram assistir, oferecendo-nos frutas e galinhas. O oficial Don Cayetano de Lángara deu ordem aos nossos homens de que ninguém, sob pena de severo açoitamento, aceitasse nenhum objeto dos ilhéus sem dar em troca algo equivalente, ou de maior valor do que o que recebesse, já que se sabia haver disposição para trocar objetos; e assim de fato se fez.

1) Un 'xeme', isto é, jeme: a distância entre a ponta do polegar e a ponta do indicador.

2) Sem dúvida refere-se à cúrcuma — planta comum na maioria das ilhas do Pacífico.

O dia 18 amanheceu bonito, com vento norte: continuamos ao longo da costa, toda batida pela rebentação, fazendo sondagens pelo caminho. Às 8 horas, a lancha da fragata, não conseguindo avançar contra o vento, entrou numa pequena baía para esperar que ele acalmasse; e nós chegamos a remo à enseada do Sino1 às 5 da tarde, para ali passar a noite. Desembarcamos e alguns ilhéus vieram receber-nos, mas um aguaceiro fez-nos voltar para a lancha durante a noite. Do lado dessa enseada que dá para o promontório de San Felipe, ergue-se da costa uma rocha em forma de sino, e daí vem o nome da enseada.

1) Isto é, enseada do Sino = Caleta de la Campana.

Ao romper do dia 19 fizemo-nos à vela, com vento N. e bom tempo, rumo ao promontório de San Felipe, onde a outra lancha se juntou a nós, informando que não tinha novidades. Nessa altura lutávamos contra a corrente, que corria para leste e contra a qual não conseguíamos avançar a remo. A lancha da fragata, menor do que a nossa, avançava melhor do que nós, e os de bordo, vendo-nos lutar contra a persistência da corrente, mandaram-nos o cúter com uma tripulação descansada para render os nossos homens, que estavam exaustos. Mesmo assim, a corrente fazia-se sentir com tanta força que, depois de remar das 9 da manhã até as 6 da tarde, mal tínhamos avançado uma légua desde o cabo San Felipe. Nessa hora, porém, Deus nos favoreceu com uma trovoada acompanhada de chuva e de uma mudança de vento de NO para SE, que nos levou ao costado às sete e meia, terminando assim a nossa expedição sem outras aventuras além das já relatadas.

Ficamos convencidos de que o ancoradouro em que estávamos fundeados é o melhor que toda a ilha oferece, à exceção do de San Juan, para o qual não nos mudamos, pois em breve deixaríamos esta terra, uma vez que só nos restava tomar posse dela em nome do Rei.

1) ‘Leonda’ no manuscrito; evidentemente trata-se de novo do capitão Olaondo.

No dia 20, ao romper do dia, todos os marinheiros armados embarcaram nas lanchas e cúteres dos dois navios, sob o comando de Don Alberto Olaondo1, capitão de infantaria de marinha, com o seu destacamento de fuzileiros e os da fragata, que somavam ao todo 250 homens. Todos eles seguiram para o interior da ilha para reconhecer a região. O nosso Comandante [segundo capitan], Don José Bustillos2, foi com outro corpo de fuzileiros e marinheiros e com os dois capelães, que levavam três cruzes para serem erguidas em três cumes que, como se vê na Planta, existem na ponta NE da ilha.

2) ‘Jose Gustillo’ no manuscrito; evidentemente trata-se de Josef Bustillos.

Grande número de nativos recebeu-os no desembarque e ofereceu-se para ajudar os nossos oficiais a desembarcar, o que de fato fizeram; e encarregaram-se das três cruzes, que levaram até os ditos montes, enquanto os capelães entoavam as Ladainhas e os ilhéus se uniam aos nossos nas respostas, ora pro nobis. No momento em que se cavava o buraco no monte do meio, brotou uma bela fonte de água doce, muito boa e abundante. Plantadas as cruzes, o grupo disparou três salvas de mosquetaria, e os navios responderam com vinte e um tiros de canhão cada um, ao grito alegre de Viva el Rey. Os ilhéus responderam junto com os nossos; pronunciam com tanta facilidade que repetem tudo o que se lhes diz tal como nós. Concluída essa empresa, voltamos todos a bordo.

As mulheres usavam mantos ou capas: um que as cobre da cintura para baixo e outro em volta dos seios. Há também outras que usam apenas um trapo ou tira de alguma raiz, que põem na frente, como os homens. Têm várias choças muito baixas e pequenas, e algumas como a mencionada em primeiro lugar.

Por toda a ilha, mas sobretudo perto da praia, há certos blocos enormes de pedra em forma de figura humana. Têm umas doze jardas de altura, e creio que são os seus ídolos. Não suportavam ver-nos fumar charutos: pediam aos nossos marinheiros que os apagassem, e eles o faziam. Perguntei a um deles o motivo, e ele fez sinais de que a fumaça subia; mas não sei o que isso significava nem o que ele queria dizer.

Imagino que os mantos ou capas desses ilhéus sejam feitos das fibras dos caules da bananeira, que, depois de secas, eles juntam como melhor lhes convém1: o tecido não é tramado, mas unido por fios do mesmo material, que eles enfiam em agulhas de osso do tamanho de uma agulha de alfaiate. Fazem linhas de pesca dessa mesma fibra, bem como redes ao estilo das nossas redes pequenas, mas pouco resistentes.

Têm muito pouca madeira; mas, se plantassem árvores, não lhes faltaria; e creio que até o algodoeiro daria, pois a terra é muito temperada, assim como o trigo, as hortaliças, as ervas de cheiro etc. Tingem os seus mantos de amarelo.

1) O material era, na verdade, a entrecasca branca da amoreira-do-papel (Broussonettia papyrifera), e o fio usado para unir os pedaços era provavelmente feito da casca do Hibiscus tiliaceus. Um oficial da marinha espanhola pode bem ser desculpado por cair nesse erro, pois o uso da fibra da Musa textilis, que ele conhecia como abacá e nós como ‘cânhamo-de-manila’, certamente lhe teria chamado a atenção nas ilhas Filipinas; e talvez até o cordame de laborar do seu navio fosse feito dela já naquela época.

O número de habitantes, de ambos os sexos, será de uns novecentos a mil almas; e, destes, muito poucos são mulheres — não creio que cheguem a setenta — e poucos são meninos. Têm a cor de um quarterão, cabelo liso e barba curta, e em nada se parecem com os índios do continente sul-americano; se usassem roupas como nós, poderiam muito bem passar por europeus. Comem muito pouco e têm poucas necessidades: passam inteiramente sem bebidas alcoólicas de qualquer espécie.

No dia 21, ao meio-dia, fizemo-nos ao mar desta Ilha de David: navegamos umas 70 léguas para oeste, para ver se havia mais terra naquela direção.

Da longitude de 263° 31' seguimos para leste até 281°, ao longo do paralelo de 38 ½°, sem encontrar nenhum sinal; e dessa posição seguimos para Chiloé.